2006-05-22

Jornal Zero Hora, caderno Globaltech de hoje:

"A Globaltech 2006 poderá marcar o início do fim do vale-transporte - pelo menos na forma da popular fichinha hoje utilizada nos ônibus e que serve também como moeda para boa parte da população.(...)

O cartão permitirá praticamente personalizar a passagem. Ele poderá ser configurado, por exemplo, para que um estudante só utilize o desconto de passagem escolar nas linhas que conduzem ao colégio ou universidade em que ele estuda. Nas demais linhas da cidade, ele pagará o valor integral da tarifa.(...)

Acessando a um serviço disponível do telefone celular, o usuário poderá localizar o trecho do itinerário em que seu ônibus se encontra naquele momento. Assim, ele saberá se o veículo acabou de passar pela sua parada ou se ainda vai demorar alguns minutos.


Gostaria de salientar três pontos:

1- O comércio de vales transporte, como a própria reportagem afirma, já é uma economia paralela. As "fichinhas" são moedas correntes no centro das grandes cidades. Esta mudança tira do trabalhador um recurso indispensável na maioria dos casos (naqueles onde o custo da viagem excede os 6% do próprio salário). Isto por um simples motivo: as empresas pagam, geralmente, 50 vales para serem usados 44 ao mês. Estes seis a mais geralmente são os negociados informalmente, depois de alguns meses (12, quando conseguem que um saquinho de 50 não seja aberto). Alguns empregadores estão contando os dias úteis do mês e abrindo os pacotes (já lacrados tradicionalmente com 50 unidades) e reempacotando para que não ocorra a sobra. Isto é reduzir o salário de um trabalhador indiretamente. Ao colocar a dita passagem eletrônica o trabalhador ainda perde outro recurso - a carona - para guardar sua passagem. Além disso, muitos outros utilizam meios alternativos - como a bicicleta - guardando seu vale para outras finalidades. Quem lucra aqui é o empregador e a empresa de ônibus (isso se lembrarmos que o "vendedor" de vale sempre cobra menos do que o valor integral da passagem).

2- O estudante não tem direito a andar de ônibus pela metade do preço só para ir para a sua escola. Ele é estudante - uma espécie de atestado de carência pois, em um país decente, o aluno não trabalha, não tem recursos. Com o procedimento descrito na reportagem estão proibidos de serem pobres. Mais uma vez, quem dá vivas é o dono da empresa de ônibus.

3- Deveria existir um projeto de lei que evitasse estes "benefícios" tecnológicos, insituindo um cálculo de impacto social. Se pararmos para pensar, todos (90%, para mim, já é totalidade) os "avanços" tecnológicos que temos são feitos por empresas para aumentar o seu próprio lucro. E como nada se cria, tudo se transforma, alguém tem que perder para eles ganharem - e esse alguém somos nós.

4- (ah, eu tinha dito três... azar) As empresas de jornalismos deveriam mesmo ser auditadas por órgãos governamentais que impedissem de dar as notícias da forma como a exposta acima. Se você não tiver nenhum censo crítico (ou for desatento) não vai se dar conta de que o que eu escrevi não é insignificante e precisaria ser abordado.

SACANAGEM (E NÃO É PORNOGRAFIA)
Escrito às 10:00